Bibis da vida real: ex-mulher de dois traficantes vive exilada na Bahia


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A comerciante Carla (nome fictício), 27 anos, ainda tenta corrigir, ou superar, os erros cometidos durante a vida que levou quando esteve envolvida com dois traficantes, na sua juventude.

Hoje dona de um bar na Bahia, ela deixou o Piauí por medo de ser morta. O exílio por aqui tem ajudado ela a reconstruir sua vida, no entanto, acredita que seu exemplo pode ajudar a evitar que outras jovens caiam na mesma armadilha que a fisgou, e acabou levando ela ao “inferno da cadeia, comendo comida feita pra rato.”

A personagem Bibi, vivida por Juliana Paes, em novela, entra para o crime por influência do companheiro (Foto: Reprodução/TV Globo)
A personagem Bibi, vivida por Juliana Paes, em novela, entra para o crime por influência do companheiro (Foto: Reprodução/TV Globo)

Carla admite que o amor, o dinheiro e o poder a ‘convenceram’ a entrar para o crime: lembra que chegou a ser conhecida como Musa do Tráfico, em Teresina, e se compara à personagem Bibi, da novela Força do Querer (TV Globo). “Acho que tenho muito mais coragem do que ela”, garante.

Ao CORREIO, ela relatou situações que demonstram esse ímpeto. A narração, em primeira pessoa, conta sobre o primeiro relacionamento, com o traficante Alex (nome fictício), na capital piauiense, para onde ainda tem que retornar, eventualmente, para prestar contas com a Justiça.

Entre os processos que Carla ainda responde, está um homicídio cometido, segundo ela, também por amor. “Não é fácil ser mulher de bandido, tem que ter coragem e raça. Só o amor mesmo, viu?”

Leia o relato em primeira pessoa:

Atração – Eu tinha 15 anos quando conheci meu primeiro marido. Eu tinha acabado de chegar do interior do Piauí e morava em Teresina, na casa de uma tia. Ele tinha 27 anos e cismou que queria ficar comigo. Eu não queria ficar, né? Só que umas amigas minhas ficaram botando pressão e eu fui conhecer ele. Eu lembro como se fosse hoje do nosso primeiro encontro: a gente ficou em um bar que ele frequentava, mas eu não gostei porque achava ele feio e velho. Só que depois ele foi me conquistando com presentes. Sabe, celular? Ele me dava toda semana um novo e ainda dava anel de ouro.

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Encantamento – Depois de um tempo eu comecei a gostar dele de verdade e aí começamos a namorar, mas ele só tirou minha virgindade depois de dois anos. Só descobri que ele era traficante depois de um ano, porque a ex-mulher dele mandou uma carta para minha família. Eu nunca percebi que ele era envolvido, porque eu era muito nova e já estava encantada com ele e com o mundo que ele me apresentou. Meu pai tentou me tirar dele, mas já era tarde. Alex me botou em uma casa e nós começamos a morar juntos.

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Choque de realidade – Só que homem com dinheiro nunca é de uma mulher só. Alex nunca ficou só comigo, mas eu era a ‘federal’. Ele me levava pra tudo e todo mundo sabia da gente, mas eu lembro que ele me traía com várias raparigas e eu ia atrás dele em qualquer lugar. Ele também era ciumento e me batia em qualquer lugar. Na igreja, na rua, em casa…

Eu achava que ele me batia porque gostava de mim, porque sentia ciúmes. Já apanhei muito, porque ele via bicho quando usava droga, mas eu nunca quis largar dele. Nem passava pela minha cabeça, porque aquele homem me protegia, sabe? Alex é e sempre será o amor da minha vida. Não quis largar ele nem no caixão.

Ameaça e tiros – Cheguei a me separar dele duas vezes, porque ele traiu com uma mulher mais velha e a outra porque ele estava sendo ameaçado, por causa de disputa de território do tráfico. Uma vez, um cara deu cinco tiros na nossa casa e eu e meu filho, que tinha meses na época, estávamos dentro. Imagine!

Eu não tinha medo daquela vida, porque ele me apoiava e a gente andava cheio de segurança, até pra ir no mercado. Eu tenho medo de viver agora, que não tenho mais ele.

Tráfico, poder e assassinato – Dessa vez, Alex precisou fugir e eu fiquei pelo Piauí. Comecei a traficar depois que ele foi embora, porque queria dinheiro pra trazer ele e também gostava do poder.

Um dia me falaram que o cara que queria pegar meu marido estava na cidade. Eu criei coragem, bebi o dia todo e fui até o lugar que ele [o cara] estava e dei seis tiros pra vingar. Eu amava muito meu marido e faria qualquer coisa pra trazer ele. Depois que eu atirei, deixei meu filho na casa da minha mãe e fugi. Mas a polícia me pegou logo depois e eu desci pra cadeia.

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Inferno na cadeia – Cada dia naquele lugar é um inferno, ainda mais que eu era uma presa rebelde. Fui duas vezes para a triagem [espécie de solitária] e ainda ficava sem comer e receber visitas. A triagem era tipo um buraco; tinha tanta barata que eu tenho até nojo de lembrar. Também passei por vários presídios do Piauí, porque eu brigava em todos… Se você não impor respeito, todo mundo pisa, entendeu? Conquistei até algumas coisas para as presas, porque sempre soube dos meus direitos.

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Pena domiciliar e decepção amorosa – Fiquei dois anos presas, de 2013 até 2015, e hoje cumpro minha pena domiciliar, mas tenho audiência de dois em dois meses. A maior pena, no entanto, foi nunca ter recebido uma visita de Alex.

Ele também estava foragido e não podia me visitar, mas mesmo assim eu não entendo, porque ele nunca pagou um advogado pra mim.

Só família e amigos – Eu fiquei deprimida, eu ficava louca lá e precisava tomar Rivotril. Aquele lugar endoidece qualquer pessoa porque é muito ruim ficar presa, dormir no chão e comer aquela comida feita pra rato.

***

Comparação com Bibi – Essa Bibi, da novela, é medrosa e besta. Eu jamais comeria aquele ‘reggae’ de Rubinho. Até apanhava, mas também batia. E eu não era besta, não. Nunca deixei ele ficar com rapariga. Acho que tenho muito mais coragem do que ela.

Você sabe o que é ir dormir vestida por causa do medo da polícia chegar de madrugada? Pois é! Meu marido tinha medo. Eu era até mais corajosa do que ele. Inclusive, fiquei conhecida como a Musa do Tráfico lá. Ganhei o respeito de todo mundo. Eu já fiz muita coisa por esse amor e acho que não me arrependo, mas não quero mais. Agora quero calmaria pra cumprir o resto da minha pena. (Correio)

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